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21.10.2026

O que os corredores não mostram e o chão do Brasil revelou

Quando penso na adolescente que fui, lembro de uma menina que estudava para chegar a “algum lugar”. O objetivo era passar em uma boa universidade, de preferência pública. Era assim que aprendíamos a medir nosso sucesso. Não me lembro do nome do meu coordenador. Na verdade, nem sei se era homem ou mulher. O diretor, eu conhecia de longe, como uma figura de disciplina. Eu era aquela aluna que passava despercebida. Não era brilhante, não dava trabalho. Fazia o suficiente e seguia em frente.

Hoje, como educadora, penso muito naquela menina. E, principalmente, em tudo aquilo que ninguém chegou a conhecer sobre ela. Penso também em quantos adolescentes atravessam os corredores de uma escola carregando dúvidas, talentos, inseguranças e sonhos que nem sempre encontram espaço para aparecer. Porque há muito mais em um estudante do que suas notas, suas entregas ou aquilo que demonstra dentro de uma sala de aula.

A adolescência é um período extraordinário. Intenso, contraditório, cheio de descobertas. É tempo de experimentar possibilidades, questionar certezas, buscar pertencimento e descobrir quem se é. E acredito profundamente que todo adolescente precisa de oportunidades para se surpreender consigo mesmo. Precisa sentir que alguém acredita nele, inclusive quando ele próprio ainda não consegue fazê-lo. Talvez por isso eu acredite tanto nas experiências que levam nossos estudantes para além dos corredores da escola.

Porque, nessas viagens, ninguém passa despercebido.

Na Amazônia, vi nossos estudantes descobrirem outras formas de aprender, de conviver e de olhar para o mundo. Longe das referências habituais, o contato com a natureza, com as comunidades e com histórias tão diferentes das suas parecia despertar uma curiosidade genuína. Havia algo especial em vê-los fazer perguntas, escutar com atenção e se deixar surpreender por aquilo que encontravam pelo caminho. Entre tantos encontros, lembro da empolgação ao conhecer Izolena, uma liderança ribeirinha que, quando professora, encontrou na natureza as tintas que não tinha. O que começou como uma necessidade se transformou em conhecimento, criatividade e possibilidades. Hoje, essas mesmas cores tingem biojoias que já chegaram a desfiles de grandes marcas pelo mundo.

Mais do que admirar sua trajetória, nossos estudantes pareciam descobrir que o conhecimento não pertence a um único lugar e que a capacidade de transformar a realidade pode nascer justamente daquilo que temos ao nosso redor. E houve aquele pôr do sol no Rio Negro. Adolescentes acostumados à velocidade dos reels, às telas e às imagens que desaparecem em segundos estavam ali, vidrados. Sem pressa. Diante de algo que não precisava de filtros, explicações ou qualquer outra coisa além de um olhar atento.

No Sertão, vi a literatura ganhar vida diante dos nossos olhos. As paisagens, os animais e as histórias das pessoas pareciam dar corpo às páginas de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e aos versos de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Obras que nossos estudantes haviam conhecido ao longo do Ensino Médio deixavam de existir apenas nos livros e passavam a dialogar com aquilo que viam, ouviam e sentiam. A água, tão presente em nossa rotina, ganhou outro significado diante de famílias que precisam pensar em cada gota para viver. E, junto com a dureza daquela realidade, encontramos também a generosidade e a força de quem constrói sua vida naquele território. Porque o Sertão não se resume à escassez. Há ali histórias, saberes e uma riqueza humana que nenhuma leitura, sozinha, conseguiria revelar por inteiro. Aquilo que antes era conteúdo passou a ter rosto, voz e história. E talvez seja justamente aí que a aprendizagem encontre um de seus sentidos mais profundos: quando aquilo que sabemos começa a transformar a maneira como olhamos para o mundo.

Mas há uma cena que ainda hoje me arrepia. Estávamos em roda com as famílias que nos receberam. Um a um, os estudantes começaram a falar. A agradecer. A compartilhar o que haviam sentido. Pessoas de diferentes histórias, crenças e realidades desejavam, umas às outras, simplesmente o bem. Não havia uma resposta certa a ser dada, uma nota a ser conquistada ou uma expectativa acadêmica a ser cumprida. Havia apenas pessoas que, depois de alguns dias compartilhando experiências, tinham algo verdadeiro a dizer umas às outras.

Eu olhava para aqueles adolescentes e pensava em quanta coisa bonita existe neles que nem sempre conseguimos enxergar. Porque a adolescência é isso também. É intensidade, é dúvida, é busca por pertencimento. Mas é, sobretudo, potência.

E há algo que me emociona especialmente: perceber o quanto um adolescente pode ser mobilizado por outro adolescente. Pelo colega que se dispõe a ajudar, pelo grupo que encontra uma solução junto, por alguém que demonstra coragem quando os demais ainda hesitam. Muitas vezes, a motivação não nasce de uma orientação adulta, mas do encontro, da convivência e da vontade de fazer parte de algo maior. Existe um currículo cuidadosamente pensado por trás dessas experiências. Há conhecimento, planejamento e intencionalidade pedagógica. O currículo oferece repertório, ferramentas e caminhos para compreender o mundo. Mas é a experiência que transforma aquilo que aprendemos em algo que passa a fazer parte de quem somos.

E talvez o mais bonito seja perceber que nós, educadores, também voltamos diferentes.

Voltamos conhecendo estudantes que talvez nunca tivéssemos conhecido daquela maneira dentro da escola. Descobrimos talentos, generosidades, fragilidades e coragens que não cabem em relatórios ou avaliações. Vemos jovens assumindo responsabilidades, acolhendo colegas, escutando histórias e encontrando seu próprio jeito de contribuir. Penso novamente na adolescente que fui. Na menina que passava despercebida, sem imaginar quantas possibilidades ainda existiam dentro dela. Hoje, tenho o privilégio de acompanhar jovens enquanto descobrem as suas. E talvez uma das maiores responsabilidades de quem educa seja justamente essa: não permitir que o olhar sobre um estudante se limite àquilo que ele já consegue mostrar.

Sei que nem toda transformação acontece diante dos nossos olhos. Algumas levam tempo. Outras talvez só façam sentido muitos anos depois. Mas isso não diminui o valor de cada encontro, de cada descoberta, de cada pequena mudança de perspectiva. Gosto de imaginar que cada estudante volta dessas viagens carregando algo que não levou na mala. Uma memória, uma pergunta, uma inquietação ou uma nova maneira de olhar para si e para o mundo. O chão do Brasil nos revelou muito mais do que paisagens e histórias. Revelou adolescentes que se emocionam, que se importam, que surpreendem e que têm tanto a oferecer.

E, para mim, educar é um pouco isso: enxergar em cada jovem possibilidades que ele próprio ainda não conhece e acreditar nelas até que um dia ele também consiga enxergá-las.

Karine Pinto e Vairo

Coordenação Geral do Ensino Médio

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