29.10.2026
A coeducação e a responsabilidade coletiva na formação integral
A criança vive uma única experiência de desenvolvimento. Ela não deixa as emoções em casa quando entra na escola, nem esquece na sala de aula o que aprendeu quando volta para casa. Daí a importância do alinhamento de valores entre escola e família. A escolha da educação formal dos filhos deve estar alinhada com o que a família deseja e acredita para um futuro cidadão do mundo. Por isso, educar não é uma tarefa dividida entre instituições, e sim uma responsabilidade compartilhada entre todos os adultos que fazem parte da vida dela.
É isso que chamamos de coeducação. Casa e escola são contextos diferentes e podem ter regras próprias, mas os princípios que orientam as relações devem ser comuns. Trata-se de construir uma aliança educativa sustentada por valores compartilhados: o respeito pela criança, limites claros e consistentes, escuta ativa, “respons-habilidade” pelos próprios atos, o desenvolvimento da autonomia, a valorização do diálogo e a compreensão de que errar faz parte da aprendizagem.
Nesse caminho, a consistência é decisiva. Ser consistente significa oferecer à criança previsibilidade emocional e ética: ela sabe o que esperar dos adultos, sabe que será ouvida e sabe que os valores não mudam conforme o humor do dia. É essa segurança que permite a ela arriscar, errar e crescer. O limite não é um muro que aprisiona a criança, mas um contorno que a protege e a orienta, como as margens de um rio que não impedem a água de correr, apenas lhe dão direção. Ao funcionar como um balizador, o limite mostra à criança onde estão os caminhos seguros e respeitosos, e é dentro desse contorno firme e acolhedor que ela ganha liberdade para explorar, escolher e aprender a se responsabilizar por seus atos.
As crianças aprendem muito mais observando as relações do que ouvindo discursos. Quando convivem com adultos que resolvem conflitos com respeito, que estabelecem limites sem violência e que incentivam a reparação em vez da punição, elas constroem referências internas sobre como se relacionar com os outros. O exemplo ensina mais do que qualquer sermão.
É nesse ponto que a Disciplina Positiva ganha sentido. Ela costuma ser mal compreendida como permissividade, e é exatamente o contrário. Trata-se de uma postura que une firmeza e gentileza ao mesmo tempo: o limite continua existindo, e é comunicado com respeito, sem gritos, ameaças ou constrangimento. Não se abre mão da autoridade do adulto, que passa a ser exercida com serenidade e clareza.
Dentro dessa perspectiva, a reparação ocupa um lugar central. Reparar é assumir a responsabilidade pelo que aconteceu e buscar, ativamente, restaurar o que foi afetado, isso envolve a compreensão do erro em sua totalidade, a maneira que afetou o ambiente e os outros para que, com a mediação do adulto, possa encontrar o melhor caminho de restauração. Enquanto a punição costuma gerar medo, rebeldia, saídas sorrateiras ou ressentimento, a reparação convida a criança a compreender o impacto de seus atos, podendo se tornar protagonista da solução.
Quando escola e família caminham na mesma direção, a criança percebe coerência no mundo que a cerca. E é dessa coerência, feita de diálogo, limites e confiança, que nasce a formação integral que desejamos para cada uma delas.
Por – Maria Laura Sanchez e Tania Terpins
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