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09.10.2026

Conference Cycle – Renata Cafardo – Como educar seus filhos antes dos algoritmos?

Na noite de 7 de outubro, a Beacon recebeu a jornalista e escritora Renata Cafardo para mais um Conference Cycle. Especializada em educação, repórter especial e colunista do Estadão, Renata é fundadora e presidente da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) e autora de O algoritmo das famílias: como o mundo digital desafia a parentalidade, livro que serviu como ponto de partida para uma conversa necessária sobre infância, adolescência e parentalidade em um mundo cada vez mais atravessado pela tecnologia.

Sob o título “Como educar seus filhos antes dos algoritmos?”, o encontro partiu de uma constatação importante: a vida digital não é mais um território separado da vida das crianças e dos adolescentes. Algoritmos, redes sociais, jogos, inteligência artificial e plataformas digitais participam da maneira como nossos filhos constroem relações, acessam informações, formam opiniões e, cada vez mais, desenvolvem sua própria identidade.

Renata trouxe para a conversa alguns dos mecanismos que tornam esse ambiente particularmente desafiador. Rolagem infinita, vídeos curtos, autoplay, notificações e sistemas de recomendação não são recursos neutros: fazem parte de uma economia que disputa constantemente a nossa atenção. Como destacou durante o encontro, “o negócio das big techs é a nossa atenção”. Ao mesmo tempo, reforçou que compreender esses riscos não significa demonizar as telas. O desafio é educar crianças e adolescentes para navegar por um território novo, complexo e em permanente transformação.

Essa perspectiva desloca uma pergunta muito comum : quanto tempo meu filho pode ficar na tela?  para questões talvez mais importantes: Que critérios ele está construindo para fazer escolhas? Sabe reconhecer fontes confiáveis? Entende por que determinado conteúdo captura sua atenção? Consegue questionar o que um algoritmo lhe oferece? E que referências encontra nos adultos ao seu redor?

Essa foi uma das provocações que atravessaram também a mediação da conversa: antes que os algoritmos disputem a atenção, os desejos e a identidade de nossos filhos, o que precisamos ajudá-los a construir?

No livro, Renata defende que ser um bom pai ou uma boa mãe hoje não significa vigiar obsessivamente cada minuto passado on-line, mas construir critérios, referências e diálogo. Isso envolve conversar sobre como as plataformas funcionam, questionar as intenções por trás dos conteúdos, ensinar a buscar fontes confiáveis e, sobretudo, manter aberta uma relação na qual crianças e adolescentes possam trazer dúvidas, desconfortos e medos.

A conversa abordou também o papel da escola. Renata destacou a importância da educação midiática, tanto em casa quanto nos espaços educativos: aprender a diferenciar jornalismo de influência, verificar fontes, compreender bolhas informacionais e perceber como ambientes digitais podem criar uma falsa sensação de unanimidade. Em um contexto de inteligência artificial e abundância de informação, acessar respostas já não é suficiente. Como sintetizou durante o encontro, “o futuro não pertence a quem acessa informações, mas a quem interpreta, conecta e atribui significado”.

Outro ponto importante foi a necessidade de não transformar essa discussão em mais uma fonte de culpa para as famílias. Pais e mães enfrentam empresas com enorme capacidade tecnológica, econômica e de persuasão. Por isso, Renata defendeu uma responsabilidade compartilhada, que envolve famílias e escolas, mas também regulação, fiscalização das plataformas e acordos coletivos capazes de proteger crianças e adolescentes.

Nesse sentido, o encontro reforçou algo que está no centro da relação entre a Beacon e suas famílias: educar é uma tarefa coletiva. Limites são necessários, mas também são necessários diálogo, presença, autonomia progressiva e adultos dispostos a entrar nesse universo junto com as crianças e que possam assistir, jogar, perguntar, compreender e ajudar a construir critérios.

Talvez uma das mensagens mais potentes da noite tenha sido justamente a de que não precisamos escolher entre controle absoluto e liberdade irrestrita. Como Renata escreve em seu livro, nosso desafio é “oferecer base segura sem impedir a exploração; acompanhar sem invadir; orientar sem sufocar; impor limites sem romper o diálogo.”

Em um mundo no qual a tecnologia continuará mudando mais rapidamente do que qualquer manual de parentalidade consegue acompanhar, algumas referências permanecem. O livro termina lembrando que educar continua sendo uma experiência feita de “amor e dedicação, informação e cuidado, presença e vínculo”  e nunca de perfeição.

Foi com esse convite à reflexão, à responsabilidade compartilhada e, sobretudo, à presença que encerramos mais um encontro.

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