07.10.2026
“Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia.” — Rubem Alves
Existe um desafio que atravessa a educação desde sempre: equilibrar o desenvolvimento cognitivo e o emocional. Por muito tempo, a dimensão cognitiva foi supervalorizada e as emoções ficaram em segundo plano. O educador Jerome Bruner lembrava que o ser humano foi historicamente dividido em três “regiões” — cognitiva, emocional e física — e que hoje precisamos construir pontes para conectar o que nunca deveria ter sido separado.
Na primeira infância, esse equilíbrio é ainda mais decisivo. É nessa fase que as crianças estão mais sensíveis e ávidas por aprender, e que se lançam as bases de quem elas serão. A educação socioemocional é justamente o aprendizado de habilidades para lidar consigo mesmo e com os outros: empatia, autoconhecimento, autonomia, resiliência, paciência e comunicação.
E aqui está um ponto que toca de perto todas as famílias: a pesquisa da psicologia do desenvolvimento, especialmente nos estudos de John Bowlby sobre vínculos, mostra que tanto o ambiente familiar quanto o escolar moldam profundamente a saúde emocional das crianças — e que essas referências de afeto influenciam relacionamentos por toda a vida. Uma escola que oferece segurança, apoio emocional e interações positivas cultiva senso de pertencimento, autoestima e habilidades sociais. Um lar acolhedor e previsível faz o mesmo. Quando escola e família caminham juntas, os ganhos se multiplicam.
E é aqui que a literatura entra em cena. Através da linguagem, as crianças internalizam valores, nomeiam o que sentem e aprendem a regular suas emoções. Quanto mais rico o vocabulário emocional que oferecemos — indo além de “feliz”, “triste” e “bravo” —, mais confiança e recursos elas têm para se expressar e compreender os outros.
As histórias fazem isso de um jeito que nenhuma explicação conseguiria. Elas permitem que a criança se identifique com personagens e vivencie suas emoções; convidam à reflexão sobre dilemas morais; desenvolvem a empatia ao colocar a criança no lugar do outro; e mostram, pelas jornadas das personagens, caminhos de resiliência e resolução de conflitos. Contos de fadas, por exemplo, ajudam os pequenos a enfrentar perdas, medos e superações — fortalecendo-os para encarar o mundo real.
Uma sugestão prática: ler é diferente de contar. É na leitura que a criança percebe a métrica, a repetição e a intenção das palavras escolhidas pelo autor. E, ao final de cada história, vale conversar: o que a personagem sentiu? Quando já nos sentimos assim? São nesses diálogos que a história vira ferramenta para a vida.
Para começar em casa, algumas obras que abordam emoções: O monstro das cores (Anna Llenas), Emocionário (Cristina Pereira e Rafael R. Valcárcel), O livro dos sentimentos (Todd Parr) e A mágica da respiração (Christopher Willard e Wendy O’Leary).
Que cada história compartilhada seja uma porta para o mundo grande — e para o mundo interior de nossas crianças.
Por Gabriela Campos Okada
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